Roger Waters :  o  “ exército de um homem só 

M.A.R.

  Ao contrário do que sugeria o título, o disco Obscured by Clouds, lançado em 1972 como trilha sonora do filme La Vallée, de Barbet Schroeder, já evidenciava, e em uma única faixa – Free Four -, o “projeto de banda” que, futuramente, seria executado por Roger Waters. “Belicismo”, “Solidão”, “Pessimismo” e críticas sociais serviriam de base à mensagem que – passada a era psicodélica de Syd Barret [1946-2006] – predominaria em meio ao som que ficaria conhecido, de maneira nem sempre apropriada, como “progressivo”.

 Se por um lado Waters revelava-se, já naquela época, um músico de potencialidades incríveis e genialidade incontestável, por outro, tais predicados não se faziam sentir senão em meio a pretensões indisfarçavelmente egocêntricas. E não fosse a sagacidade de David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright [1943-2008], Dark Side of the Moon, de 1973, não teria entrado para a história da Música como a grande obra prima do Pink Floyd enquanto banda, mas do Pink Floyd enquanto projeto pessoal de Roger Waters, que até abria espaço para a atuação dos demais integrantes, porém, sempre, como meros coadjuvantes.

 Projeto que não demorou muito a se realizar, pois, bastou passar a nuvem em certa medida nostálgica que o disco Wish You Were Here, de 1975, havia provocado quanto à memória de Syd Barret para que, em plena produção do álbum Animals, de 1977, a presença, ou melhor, onipresença de Waters se fizesse clara e evidente. O Pink Floyd havia se tornado do tamanho da personalidade megalômana e ambiciosa de Roger Waters, que agora controlava praticamente todo o processo produtivo da banda, de modo que pouco espaço restava para que talentos e competências igualmente grandes, como os dos demais membros do grupo, pudessem se manifestar livremente.

  Nenhum outro disco poderia ser mais emblemático, no que se refere a tal fase, do que The Wall. Muito além de representar um distanciamento em relação à sociedade de

seu tempo, algo inspirado em experiências não só de Waters como também do próprio Syd Barret, o clássico de 1979 ergueu-se como a grande muralha musical que separava, de um lado, Gilmour, Mason e Wright e, do outro, o – agora “confortavelmente entorpecido” no comando – senhor George Roger Waters. A gota d’água viria em 1983, com The Final Cut, disco em que o subjetivismo de Waters chegaria ao ponto de o músico arrogar a si próprio todos os créditos da obra, apresentada como um réquiem para o sonho do pós-guerra, por Roger Waters, tocado pelo Pink Floyd, mas sem Richard Wright, àquela altura, demitido pelo próprio Waters. Em termos práticos, The Final Cut insistia não só na mesma sonoridade como também nos mesmos e, já naquele momento, velhos e desgastados temas evidenciados por The Wall. Ou seja, o bom e velho Waters não parecia saber fazer outra coisa que não choramingar a morte de um pai que nunca conheceu, vítima das guerras provocadas pela crueldade do mundo de sua época.

  Aliás, “guerra” foi o que ele travou, em 1986, com os, a partir de então, ex-colegas de banda pelos direitos da marca Pink Floyd. Com o orgulho ferido, mas nunca destruído, o velho e solitário soldado seguiria lutando incansavelmente, às vezes provando aqui e ali que ainda era capaz de lançar novos “artefatos”, que, embora eficientes, por um lado, incapazes, por outro, de provocar “estragos” da mesma magnitude que, outrora, o combate com os demais aliados provocava …

  E ao insistir em – ainda – trabalhar com os mesmos e velhos sucessos, remoendo as mesmas e velhas temáticas – como o prova a retomada da espetacular, porém previsível, turnê The Wall Live – o velho Waters mostra que a maior batalha de que não saiu vitorioso foi, na grande realidade, a batalha contra o tempo. Não porque lhe falte habilidade para construir algo novo, mas, talvez, por não haver, no atual e instável mundo da música, espaço suficiente para a grandeza, a genialidade e, sobretudo, a personalidade de músicos do calibre de um Roger Waters.

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Roger Waters [Ao Vivo]