Justiça seja feita ou Apologia de Axl Rose


M.A.R

 

  Existiria um culpado pelo fim do Guns ? Refiro-me não a atual “banda do Axl” – com todo o respeito que ela merece -, mas ao bom e velho Guns N’ Roses, um dos grandes difusores do hard rock de meados dos anos 80 ao início da década de 90. Apontar Axl Rose como o único responsável, como muitos fazem, é, simplesmente, ignorar a participação dos demais integrantes nessa história, negando-lhes o papel, senão de protagonistas, ao menos de meros coadjuvantes. Axl não “acabou” com a banda sozinho. O Guns N’ Roses se autodestruiu. Apesar de “se amarem”, como outrora afirmara Steven Adler, ex-baterista do grupo, a estranha e insustentável combinação entre “armas” e “rosas” dificilmente poderia resultar em um final feliz: a fama e o dinheiro; o abuso de drogas (sobretudo por parte de Adler), o temperamento explosivo de Axl e os consequentes atritos internos fizeram com que a balança acabasse pendendo mesmo para o lado das “armas”, relegando a lembrança dos bons e agradáveis momentos a baladas como Patience ou November Rain

  Ou a banda sobreviveria muito tempo sem Axl ? Haveria Guns N’ Roses sem Axl ? Ou o contrário, que, ainda mais hoje em dia, também seria válido : existe Guns N’ Roses sem Slash, Stradlin, McKagan, Adler/Sorum ? Haveria como sustentar esse nome de tão grande peso ? Pelo menos para os fãs e apreciadores do som, não da atual, mas da lendária banda de hard rock a resposta é óbvia … Isto porque “Axl” e “Guns” parecem palavras indissociáveis. Melhor dizendo, são como a combinação perfeita (apesar de explosiva, é claro). Axl Rose e seus “comparsas” construíram – e implodiram – uma das mais importantes e representativas instituições do Rock n’ Roll. Cometeram, apesar dos pesares, um crime perfeito. Isto porque nenhuma outra banda fez juz ao próprio nome tal qual o bom e velho Guns N’ Roses. “Armas e Rosas” é um nome mais que sugestivo. Parecia tudo premeditado : Axl e seus parceiros, ao vivenciar o nome Guns N’ Roses, unindo amor e ódio, fúria e paciência, poesia e deboche, conciliaram o inconciliável, aproximaram os opostos, conceberam o inconcebível e, como se fosse tudo previsível, o resultado foi devastador …

  Mas, em meio às ruínas daquela que, sem dúvida alguma, foi uma das mais cativantes e arrebatadoras bandas de rock de todos os tempos, algo sobrevive : o mito Axl. Vivendo, como nenhum outro de seus antigos parceiros, o lema “armas e rosas”, William Axl Rose construiu em torno de si  – e com a ajuda dos meios de comunicação – uma imagem que sobreviveu ao próprio fim do Guns. Bad boy, polêmico, indomável, carismático e controlador são traços que, dentre outros, definiriam muito bem o mito Axl. Se ele confirma ou não tal imagem – possivelmente não dê a mínima pra isso –, o fato é que Rose segue acumulando fãs e desafetos. Quanto a estes últimos : se pensam que com críticas – mesmo que bem intencionadas – contribuirão pra que Axl Rose se torne um “cara legal”, é melhor desistir… Isto porque “caras legais não tocam rock n’ roll”, como já cantava o próprio Axl muito tempo atrás. Não tem jeito. Axl Rose é o que é :

 Imprevisível – ao ponto, por exemplo, de não comparecer a vários de seus shows (incluindo o combinado em 11/03/2010 com o apresentador Marcos Mion, em sua boate “para poucos”, em São Paulo), isto quando não os interrompia ainda no início, provocando confusões e diversas ocorrências policiais – e ao mesmo tempo Surpreendente, quando, por exemplo, sem que muitos acreditassem, apareceu com sua banda em plena turnê mundial, para divulgar “o disco mais esperado de todos os tempos” (Chinese Democracy) … ou, mesmo, quando se desculpou por algo que não fez : a queda do palco onde se apresentaria com sua banda, no Rio de Janeiro, em Março de 2010, ocasião em que pediu aos fãs que tivessem “cuidado com a chuva” e que “aguardassem uma nova data” – a qual nem demorou a ser cumprida; http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2010/03/15/a-atribulada-semana-do-guns-roses-no-brasil-916067668.asp

 Desagradável, para muitos – a ponto de chocar aos mais devotos quando, por exemplo, fez um show exibindo uma camiseta na qual se via a imagem de um Cristo e a polêmica frase Kill Your Idols  (Mate seus ídolos) – e ao mesmo tempo Carismático, conseguindo atrair elogios até mesmo de quem considera inimigo : referindo-se ao Chinese Democracy, Slash o descreveu como “um disco perfeito do Axl”. E o vocalista “é fenomenal”, acrescentou o guitarrista, mesmo depois de ter sido apontado por Axl, ex-parceiro de Guns, como “um câncer que é melhor ser removido, evitado”; http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1020874-7085,00.html   e   http://www.cifraclubnews.com.br/noticias/21564-slash-elogia-disco-de-axl-rose-diz-que-vocalista-fenomenal.html

 Assim é Axl Rose, inexplicavelmente inexplicável, figura única na história do rock, que, ao menos pelos favores prestados à boa música, merece respeito. Afinal de contas, Axl – juntamente com seus antigos parceiros – deu ao mundo (e também tirou, é verdade) uma das maiores bandas de rock já vistas (e ouvidas, obviamente). Axl também é responsável – mais uma vez, em conjunto com os demais colegas de Guns – por cravar em “corações e mentes” canções poderosíssimas como Sweet Child O’ Mine  ou  Welcome To The Jungle. Além do mais, depois de 1991, ano do lançamento do duplo disco Use Your Illusion, o cantor Bob Dylan nunca mais viria à mente de quem simplesmente ouvisse falar em Knockin’ On Heaven’s Door, canção imortalizada na versão Guns (com os vocais agressivos e, ao mesmo tempo, melódicos de “Mister Axl ‘Fuckin’ Rose”).

  Por essas e tantas outras, justiça seja feita ao mito Axl Rose, que, ao dar sinais de que parece continuar o mesmo,   ou

–   nos aparece, em pleno século XXI, como um personagem completamente fora de seu tempo (e, por isso mesmo, inadequado aos dias de hoje)

–   ou   se destaca simplesmente como a última grande lenda viva do rock.

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