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A Última Canção :  relembrando Paulo Sérgio

” Roberto Carlos acabou.  Não existe mais Roberto Carlos…  A medicina tem escola, a arquitetura tem escola, tudo tem escola.  Paulo Sérgio seguiu a escola de Roberto Carlos…  Ele já superou Roberto Carlos “

( Chacrinha em 1968 )

M. A. R.

Paulo_Sérgio

 29 de Julho de 2015 … 35 anos da partida de Paulo Sérgio (1944-1980) ! Um legítimo “cantor das multidões” – por mais que, durante toda a sua carreira, a famigerada “crítica” o tenha tomado apenas como um mero “imitador” de

Paulo Sérgio ... e Roberto Carlos!

Paulo Sérgio … e Roberto Carlos!

Roberto Carlos. “Eu operei a garganta para ver se a minha voz ficava diferente da voz do Roberto Carlos e não adiantou. Estou desesperado, já não aguento mais ouvir todo mundo dizer que eu imito o Brasa” – desabafava o cantor no final dos anos ‘60.

 Enquanto artista, Paulo Sérgio foi produto de seu tempo: quando apareceu – já como um “sucesso estrondoso” –, em 1968, fazia pelo menos três anos que, de fato, imitadores do “rei” pululavam aos montes pelo Brasil. Porém, o que distinguiu Paulo Sérgio dos demais foi o fato de ele ter sido, como bem lembra o historiador Paulo Cesar de Araújo, “o primeiro artista com voz e estilo semelhantes ao de Roberto Carlos a alcançar grande sucesso nacional”, e, isso, num momento em que, segundo o então mais popular apresentador da televisão brasileira, Chacrinha (1917-1988), “Roberto Carlos acabou… Paulo Sérgio já superou Roberto Carlos”.

 Apesar da declaração um tanto apressada do “velho guerreiro”, tamanho foi o sucesso popular alcançado pelo ex-alfaiate capixaba que, mesmo em 1983 – portanto, três anos após sua morte –, a imprensa constatava que “no túmulo de Paulo Sérgio, decorado com flores, fotos e faixas, houve vigília” durante todo o Dia de Finados, enquanto “a sepultura de Noel Rosa” (1910-1937), por exemplo, “estava mais abandonada do que nos anos anteriores”. E a de Cartola (1908-1980), por sua vez, havia sido, na véspera do feriado religioso, “caiada e pintada àsPaulo Sérgio Contra Todos pressas por dois funcionários da Santa Casa de Misericórdia” – enorme era o peso da memória de Paulo Sérgio. O já citado Araújo vai além: foi Paulo Sérgio “quem retrabalhou a fórmula da balada romântica e abriu as portas do mercado discográfico para uma nova geração de cantores populares, que começavam sua carreira num momento em que o ciclo da Jovem Guarda chegava ao fim”. E muito embora “tenha carregado até o último dia de vida a pecha de ‘imitador do rei’, ao longo de sua carreira”, Paulo Sérgio “foi colecionando uma série de sucessos nacionais, mantendo a audiência de um público cada vez mais fiel e tornando-se precursor de um estilo de balada romântica” – posteriormente “batizada”, por uma elite intelectual preconceituosa, como “brega” – “que influenciou toda uma geração de cantores e compositores populares surgidos a partir de 1968: Odair José, Fernando Mendes, Luiz Geraldo, Jean Marcel, Gilberto Reis, Fredson” e, dentre tantos outros, as cantoras Carmen Silva e Diana.

 Por que, então, o nome do intérprete da “Última Canção” praticamente não gozou de qualquer importância por parte daqueles que registraram – para a atual geração – a história da chamada música popular brasileira? Para Araújo, “o processo social é assim mesmo”… Afinal de contas, “vivemos em uma sociedade de classes e a versão histórica que sobressai é geralmente as das classes dominantes, das quais os fãs de Paulo Sérgio não fazem parte. E, por isso, eles resistem, trazendo ao conhecimento da sociedade uma história até então silenciada, ocultada, negada”…

 Colaboremos, pois, para que a história da – genuína – música popular brasileira seja reescrita!

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Confira  alguns  dos  grandes  sucessos  de  Paulo Sérgio!

Paulo Sérgio – “Sorri, Meu Bem” [1968]

Paulo Sérgio – “No Dia Em Que Parti” [1968]

Paulo Sérgio – “Não Creio Em Mais Nada” [1970]

Paulo Sérgio – “Minhas Qualidades, Meus Defeitos” [1974]

Paulo Sérgio – “Última Canção” [1968]

 

Roger Waters :  o  “ exército de um homem só 

M.A.R.

  Ao contrário do que sugeria o título, o disco Obscured by Clouds, lançado em 1972 como trilha sonora do filme La Vallée, de Barbet Schroeder, já evidenciava, e em uma única faixa – Free Four -, o “projeto de banda” que, futuramente, seria executado por Roger Waters. “Belicismo”, “Solidão”, “Pessimismo” e críticas sociais serviriam de base à mensagem que – passada a era psicodélica de Syd Barret [1946-2006] – predominaria em meio ao som que ficaria conhecido, de maneira nem sempre apropriada, como “progressivo”.

 Se por um lado Waters revelava-se, já naquela época, um músico de potencialidades incríveis e genialidade incontestável, por outro, tais predicados não se faziam sentir senão em meio a pretensões indisfarçavelmente egocêntricas. E não fosse a sagacidade de David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright [1943-2008], Dark Side of the Moon, de 1973, não teria entrado para a história da Música como a grande obra prima do Pink Floyd enquanto banda, mas do Pink Floyd enquanto projeto pessoal de Roger Waters, que até abria espaço para a atuação dos demais integrantes, porém, sempre, como meros coadjuvantes.

 Projeto que não demorou muito a se realizar, pois, bastou passar a nuvem em certa medida nostálgica que o disco Wish You Were Here, de 1975, havia provocado quanto à memória de Syd Barret para que, em plena produção do álbum Animals, de 1977, a presença, ou melhor, onipresença de Waters se fizesse clara e evidente. O Pink Floyd havia se tornado do tamanho da personalidade megalômana e ambiciosa de Roger Waters, que agora controlava praticamente todo o processo produtivo da banda, de modo que pouco espaço restava para que talentos e competências igualmente grandes, como os dos demais membros do grupo, pudessem se manifestar livremente.

  Nenhum outro disco poderia ser mais emblemático, no que se refere a tal fase, do que The Wall. Muito além de representar um distanciamento em relação à sociedade de

seu tempo, algo inspirado em experiências não só de Waters como também do próprio Syd Barret, o clássico de 1979 ergueu-se como a grande muralha musical que separava, de um lado, Gilmour, Mason e Wright e, do outro, o – agora “confortavelmente entorpecido” no comando – senhor George Roger Waters. A gota d’água viria em 1983, com The Final Cut, disco em que o subjetivismo de Waters chegaria ao ponto de o músico arrogar a si próprio todos os créditos da obra, apresentada como um réquiem para o sonho do pós-guerra, por Roger Waters, tocado pelo Pink Floyd, mas sem Richard Wright, àquela altura, demitido pelo próprio Waters. Em termos práticos, The Final Cut insistia não só na mesma sonoridade como também nos mesmos e, já naquele momento, velhos e desgastados temas evidenciados por The Wall. Ou seja, o bom e velho Waters não parecia saber fazer outra coisa que não choramingar a morte de um pai que nunca conheceu, vítima das guerras provocadas pela crueldade do mundo de sua época.

  Aliás, “guerra” foi o que ele travou, em 1986, com os, a partir de então, ex-colegas de banda pelos direitos da marca Pink Floyd. Com o orgulho ferido, mas nunca destruído, o velho e solitário soldado seguiria lutando incansavelmente, às vezes provando aqui e ali que ainda era capaz de lançar novos “artefatos”, que, embora eficientes, por um lado, incapazes, por outro, de provocar “estragos” da mesma magnitude que, outrora, o combate com os demais aliados provocava …

  E ao insistir em – ainda – trabalhar com os mesmos e velhos sucessos, remoendo as mesmas e velhas temáticas – como o prova a retomada da espetacular, porém previsível, turnê The Wall Live – o velho Waters mostra que a maior batalha de que não saiu vitorioso foi, na grande realidade, a batalha contra o tempo. Não porque lhe falte habilidade para construir algo novo, mas, talvez, por não haver, no atual e instável mundo da música, espaço suficiente para a grandeza, a genialidade e, sobretudo, a personalidade de músicos do calibre de um Roger Waters.

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Roger Waters [Ao Vivo]

Os Simpsons :  o filme …  e “a morte” do Green Day

M.A.R

 

 

 Diante de uma pequena – porém atenta, exigente e entediada – plateia da cidade de Springfield, América do Norte, o Green Day fez, em 2007, aquele que teria sido o show mais frustrante e trágico de toda sua carreira. Num palco erguido bem no meio do famoso Lago Springfield, a banda que outrora fazia música para descarregar o tédio de uma vida envolta em nevoeiros de marijuana – como atestam os sucessos Basket Case, Having a Blast, Longview e tantos outros –, agora, com o politizado e bem sucedido álbum American Idiot, parecia ter encontrado, na gestão George W. Bush, a razão ou pelo menos uma válvula de escape para tanto nonsense existencial.

 Após cerca de três horas e meia de pura catarse, em que os cidadãos da pequena Springfield  “fizeram o chão tremer”  – provavelmente ao som de hits como She, Welcome To Paradise, American Idiot ou Jesus of Suburbia -,  o power trio chamou a atenção de todos para um assunto que, àquela altura, já lhes despontava como uma das grandes razões para continuar fazendo rock: o Meio Ambiente! Menos de cinco repentinos e pensativos segundos de silêncio foram suficientes para que a banda tivesse, da plateia, a pior das reações:  uma verdadeira e ensurdecedora chuva de vaias e garrafas de cerveja quase inundou o palco, de onde os caras ainda tiveram que ouvir acusações de “moralistas” – as quais, no fundo dos ouvidos, certamente ecoaram como assustadoras trovoadas.

 Se não havia mais clima para show muito menos “saída pelos fundos”, já que, agora, o palco – surpreendentemente corroído pela eventual ação poluidora do Lago Springfield – naufragava numa velocidade em muito superior à do naufrágio do próprio Titanic. Para Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool era o “apagar das luzes”, o “fechar das cortinas” e o “emudecer das guitarras”, agora substituídas por melancólicos violinos que entoavam, numa melodia fúnebre, o famoso – e sempre apropriado a tais momentos – hino gospel Nearer My God To Thee. Assim – e num último e sonoro suspiro de vida – o Green Day se “despedia” do Mundo e “encerrava” sua modesta carreira

 Vá ver o filme quis – ainda que para isso fosse necessário sacrificar uma banda de rock – chamar a atenção de todo o mundo para que se desse realmente ouvidos à urgente e imprescindível questão ambiental ou, na pior das hipóteses, a película de David Silverman não quis outra coisa senão mostrar que já não havia mais tempo para salvar o Planeta – ou, em outras palavras, brincar de “Rock N Roll por um Mundo melhor 

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Em  3  tempos:  Rodolfo Abrantes

 

M.A.R.

 

1994-2001 – Raimundos:  Eu quero é ver o ocoooo !

 

 Estava tudo ali: hardcore, punk, ska, reggae e ritmos nordestinos, combinados de um modo original para embalar temas como sexo, maconha ou situações inusitadas do cotidiano… Tudo, porém, com um humor altamente persuasivo, intercalado, vez por outra, por momentos de sanidade e consciência social. Assim tomava a cena rock nacional dos anos 90 a banda formada por Rodolfo, Digão, Fred e Canisso… que, se por um lado, cativava as atenções por não seguir na mesma e, àquela altura, já manjada trilha do chamado rock de protesto, por outro, não fazia mais que captar, como poucas de suas contemporâneas, o espírito de uma época – marcada, como era, pela banalização cultural que a vivência democrática recém adquirida naturalmente proporcionaria, em se tratando de Brasil.

 No comando do Raimundos, despontava um Rodolfo que, embora discretamente debochado e, do ponto de vista musical, visivelmente despretensioso, atuava, também, como um “abre alas pro rock” num país em grande medida rendido ao pagode e à bundalização da mídia, sobretudo, televisiva. Só no Forévis,    lançado em 1999, sintetizava e de forma mais eficiente que qualquer outro disco até então feito pela banda , fosse em suas letras, sonoridade, clipes ou na própria capa, aquele contexto … contra o qual direcionava certa carga de sarcasmo e um “tapinha” de som pesado. Embora o Raimundos nunca se resumisse a Rodolfo, a saída deste, por razões religiosas – e justo no momento em que o som dos caras começava a ultrapassar a barreira das AM’s, FM’s e elevadores -, deixaria mais que evidente o quanto sua presença era de importância, talvez até vital, para a continuidade da banda. Esta, a partir de então, teria que se banhar em suor para que, sempre diante do risco de sucumbir à acefalia, conseguisse se manter de pé e assim continuasse em sua árdua caminhada rumo ao topo, de onde Rodolfo pôde ser visto e ouvido pela última vez…

2002-2004 – Rodox:  Cansei de rodar

 

 Não demorou muito para que – após o choque de sua saída do Raimundos – Rodolfo desse as caras novamente, e, dessa vez, com uma nova e promissora banda. Muito embora não se apresentasse como gospel, a primeira impressão que se tinha do Rodox não podia ser outra, devido, justamente, ao discurso abertamente cristão de Rodolfo, que em versos como o caminho que escolhi é o estreito, nada do que fui dá saudade e todo passado é arquivo morto anunciava o início de uma nova trajetória, não apenas sonora, mas, acima de tudo, pessoal.

 Formado – e muito bem formado ! – por Marcus Ardanuy e Pedro Nogueira [substituído depois por Marcelo Magal] nas guitarras; Patrick Laplan [seguido, um tempo depois, de ninguém mais ninguém menos que Canisso ! ] no baixo; DJ Bob nos recursos eletrônicos e Fernando Schaefer na rápida, minuciosa e arrasadora bateria, o Rodox  trazia um som violentamente pesado e, ao mesmo tempo, surpreendentemente melódico. Eu acho o Rodox, musicalmente falando, muito melhor que o Raimundos. Os músicos eram muito melhores, a música era muito mais trampada, o som era mais sério… Era uma coisa que eu não tinha vergonha de botar pra minha mãe ouvir, como eu tinha com o Raimundos, diria Rodolfo, o qual, por sua vez, revelar-se-ia um notável compositor, que, apesar de expressar, basicamente, sua experiência de vida e conversão à fé cristã, sabia, como poucos, selecionar e associar, do modo mais apropriado, as palavras pelas quais deixaria seu recado. Do ponto de vista do aspecto religioso, teria sido, sem dúvida alguma, o compositor que o chamado rock gospel no Brasil, até então, jamais teve, porque conseguia, a seu modo, fugir do óbvio, além de cativar a atenção mesmo dos ouvidos mais distraídos.

 A incompatibilidade ideológica entre Rodolfo e os demais integrantes da banda, entretanto, chegaria ao ponto de Fernando Schaefer, em pleno show na cidade de Salvador, dar um chute na bateria [ ! ], colocando fim à possibilidade de o Rodox tornar-se o grande nome do hardcore no Brasil… e reduzindo ainda mais, mesmo àquela altura, a já pequena lista de grupos que, do mainstream nacional, fossem dignos do rótulo “bandas de rock. Aquela bosta que a gente fez na Bahia foi só pra cumprir agenda, explicou-se o baterista Fernando. Não tenho absolutamente nada contra o Rodolfo, só que, realmente, não dava mais pra banda continuar dividindo o palco com um vocalista completamente diferente de todos, principalmente no que se refere a crenças, religião, gosto musical e estilo de vida. E então, mais uma vez, Rodolfo sairia de cena, deixando não só dois belos e consistentes registros como também a sensação, principalmente aos que sentiam sua falta no Raimundos, de que vê-lo no Rodox era algo, ao menos, compensador

2006 até o fechamento desta ediçãoRodolfo AbrantesSantidade ao Senhor

 

 Anos depois, viria a confissão: O Rodox, com todas as besteiras, foi uma banda legal… Era uma banda que eu queria usar como veículo pra pregar o Evangelho, mas eu também usei como desabafo, o que foi uma coisa negativa. Tinha muita mágoa nas músicas, muita resposta, muita necessidade de afirmação… Tinha um peso, assim, de ranço… que não era gostoso. E, para a tristeza dos que ainda sonhavam com algum retorno, o cantor arrematou: Hoje eu não consigo ouvir nenhuma música do Rodox, porque me lembra uma época muito triste… porque eu tava trabalhando tanto ataque, tanta crítica, tanto ódio das pessoas vindo pra cima de mim… coisa que eu nunca tinha experimentado na vida… Aquilo ali também era uma grande vaidade minha, sem dúvida alguma…

 Até o fechamento desta edição … que Rodolfo parece estar bem pessoalmente, disso não resta a menor dúvida, ainda mais considerando as exaustivas demonstrações que tem dado. Do ponto de vista de sua música, entretanto, faltariam motivos para dizer o mesmo, a julgar pelos discos lançados hoje em dia numa carreira gospel, em que aquelas muito bem elaboradas composições da época do Rodox  mesmo as abertamente cristãs [como Cego de Jericó, por exemplo] – dão lugar a letras que, independentemente de agora limitadas ao esquema de “Louvor e Adoração”, conseguem, sem muito esforço, passar despercebidas – embaladas, como vêm sendo, por uma sonoridade pouco convincente.

 Mas no final das contas, o que é que realmente importa ? A resposta de Rodolfo saberíamos muito bem  Contudo, aos que acompanham, desde o início, sua trajetória musical, esperar por trabalhos que, independentemente da orientação ideológica, tragam a mesma qualidade de outrora é algo absolutamente permitido, mesmo sabendo estes fiéis seguidores que estariam definitivamente condenados a se contentar com as boas e velhas lembranças sonoras de um tempo que, ao que tudo indica, não mais voltará

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Rodolfo  no  Raimundos  [2000] …

Rodolfo  no  Rodox  [2002] …

Rodolfo  Abrantes  em  entrevista  ao  Programa  Altas  Horas  [2011]…

Em  3  tempos: banda Catedral

M.A.R.

1988 a 1998: Aos ouvidos dos sensíveis de coração

  Quem assistiu ao definhar dos vívidos anos 80 num Brasil onde a maioria ainda respirava política – e o som que se ouvia ainda incitava à indignação – não poderia, ao passar pela porta de uma igreja protestante, esperar, do grupo que ali tocava, outra coisa que não fosse uma música que inspirasse sensações místicas ou coisa parecida.

  Em se tratando, porém, de uma banda que atendia pelo nome altamente sugestivo de  Catedral,  não era exatamente essa a resposta que se teria, uma vez que o projeto que, a partir de então, seus músicos conduziriam pelos próximos 10 anos não se limitaria – como era natural que ocorresse com muitos outros artistas e grupos religiosos da época – ao já batido esquema de “Louvor e Adoração”. O  Catedral  trazia – além de um som perfeitamente sintonizado com o que havia de mais persuasivo em matéria de rock oitentista tanto nacional quanto estrangeiro – mensagens que, embora essencialmente religiosas, mostravam-se muitas vezes pinceladas por críticas de cunho político e social, sem falar naquele retoque  –  regradamente cristão  –  de romance.

  Limitada à chamada cena gospel, a banda formada por Kim [nos vocais, guitarra base e violão], Cézar [na guitarra solo], Júlio Cézar [no baixo] e Guilherme [na bateria] seguiria conquistando espaço, reconhecimento, premiações e,  acima de tudo,  fãs – dotada, como era, de características que lhe conferiam, para o bem ou para o mal, certa excepcionalidade frente às demais bandas de seu tempo. Isto porque, enquanto a maioria dos grupos se destacavam, sobretudo, pelo som da guitarra, no Catedral dificilmente alguém, por menos atento que fosse, conseguiria concentrar quase todas as suas atenções noutro instrumento que não fosse o simplesmente fabuloso baixo de Júlio Cézar.  Canções como VocêVer Estrelas e SorrirHoje  e, dentre tantas outras, Teu Amor seriam suficientes para afastar qualquer desconfiança.

  Por outro lado – e talvez aí esteja a principal pedra de esquina no caminho da banda – a sonoridade, embora própria, e, principalmente, a bela voz de Kim não passariam adiante sem despertar comparações com nada mais nada menos que a maior e mais representativa banda de rock nacional de todos os tempos, a Legião Urbana de Renato Russo. Às associações que se fariam entre a sua música e a do Legião, o Catedral – bem ou mal – se sairia alegando influências sonoras que, não por acaso, também estariam presentes no som dos rapazes de Brasília, como, por exemplo,  as oriundas da banda The Smiths.  Quanto às comparações entre a sua voz e a de Renato Russo, Kim ainda hoje delas se furta alegando influências de Elvis Presley – de quem é fã e para quem, aliás, dedicaria, juntamente com os demais colegas de banda, um disco de versões intitulado The Elvis Music.

  Poucos discos lançados – e a convicção quanto à qualidade e à consistência do som que faziam – haveriam, naturalmente, de levar os músicos a esboçar, em letras mais romantizadas, figurativas ou, quando não, dúbias, a necessidade de romper os limites da carreira gospel e alcançar um maior número de ouvintes, o que viria a ocorrer somente em 1999, depois de pouco mais de 10 anos, quando o Catedral, já do lado de fora do Véu do Templo, poderia, apenas por um instante, olhar para trás e ver que – ali – deixava um belo trabalho …

 1999 a 2003: Para todo mundo ouvir

  Se por um lado, era preciso conhecer a fundo a obra do Legião para não confundir – ao ouvir pelas rádios – faixas como Uma Canção de Amor Pra Você ou Eu Quero Sol Nesse Jardim, por outro, nem precisaria conhecer tanto o Catedral para achar aquele som – e aquela voz – no mínimo, “familiares”. Com ousadia e, sobretudo, um conteúdo sonoro resistente à prova de fogo, o Catedral  impunha a si mesmo o grande desafio de atravessar estreitos corredores de preconceito, indiferença e incompreensão, construídos por gente que se aplicasse bem os ouvidos à música do grupo, admitiria, ainda que no mais profundo de si, que Catedral é Catedral e Legião é Legião …

  Ao mesmo tempo em que sugeria um rompimento com a carreira gospel, o disco Para Todo Mundo, lançado em 1999, permitia ao grupo alargar seus horizontes e conquistar, além de novos fãs, espaço na MTV e indicações a prêmios importantes. Mas nada disso sem provocar polêmicas, sobretudo, entre os fãs mais ortodoxos da fase gospel.  Quem destes, outrora acostumados a versos inocentes como a revolução do amor ao próximo e do amor a Deus acima de todas as coisas não se “chocaria” ao ouvir declarações ultra românticas tais como Eu amo mais você do que eu ou mesmo versos levemente picantes do tipo Eu quero flutuar sobre você  ? Polêmicas à parte, o fato é que apesar de, agora, utilizar uma linguagem acessível a todos os ouvintes, independentemente do seu posicionamento ideológico, a banda ainda transmitiria uma mensagem essencialmente cristã, embora estrategicamente metaforizada. Isso sem falar nos 3 importantes discos produzidos nesta nova fase de uma trajetória que, àquela altura, mostrava-se bela e promissora.

  Para Todo Mundo, Mais Do Que Imaginei e 15º Andar traziam um Catedral musicalmente maduro. A guitarra discreta e precisa – mas, agora, levemente distorcida – de Cézar, o baixo sempre fenomenal de Júlio Cézar e a bateria suave e pontual de Guilherme, somados à voz e ao agradável violão de Kim, conferiam ao  Catedral  uma sonoridade, de um lado, notavelmente densa  e, de outro, apaixonadamente  melódica.

  Para aquela banda – e apenas para aquela formação – era a unidade sonora perfeita, de modo que qualquer desfalque poderia representar considerável ameaça à qualidade preservada há anos. Não que a prematura morte de Cézar, em 2003, tenha colocado tudo a perder. Mesmo porque sua importância estava muito mais na peculiaridade que, enquanto integrante, conferia ao  som da banda como um todo, do que em ser simplesmente o guitarrista. E mesmo assim, Cézar não partiria sem deixar bons registros, a exemplo do inesquecível e, por que não dizer, fantástico  riff  de Carpe Diem.

2003 até o fechamento desta edição:  Para um novo tempo começar

  Ainda na estrada, a banda tem atuado, praticamente, nas duas frentes, lançando trabalhos tanto “para todo mundo” quanto para o público gospel. Mas, coincidência ou não, a ausência de Cézar faz sentir-se justamente num momento da discografia do Catedral em que não se pode mais, pelo menos até o fechamento desta edição, ouvir um som tão convincente quanto o das duas últimas fases. Estranho ainda é ouvir um disco que se pretende comemorativo dos 20 anos de carreira [2008] e saber que, embora não represente a melhor das fases da banda, mereceria, sem sombra de dúvida, participações à altura do potencial e da história da mesma. E se outrora, quando ainda no mercado gospel, já manifestavam o desejo de – como sempre gostam de dizer – “desrotular” sua música, o que fariam, na prática, não seria mais do que assumir um novo rótulo, que de um legítimo rock nacional passaria a um inofensivo pop rock, oferecido, vez por outra, sob a estranha designação de MPB rock.

 A despeito de tudo, entretanto, um dos traços mais marcantes em toda a trajetória do Catedral – e que continua claro como antes – é a persistência em romper limites que, apesar de naturais em toda caminhada, são, também, naturalmente necessários … para um novo tempo começar.

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Catedral  canta  “Você”  [1997]

Catedral  –  “Eu Amo Mais Você”

Em entrevista à Rádio Transamérica [SP-2000], banda fala sobre sua proposta sonora e comenta comparações com Legião Urbana

21 de Julho: aniversário de Sweet Child O Mine !

M.A.R

 Vez por outra, como de costume, aparecem aquelas famosas – e quase sempre injustas – listas de maiores disso ou daquilo no mundo da Música… Nos últimos anos, a polêmica ficou por conta das listas dos 100, 50  ou 10  maiores guitarristas de todos os tempos. Se o nome de Slash merece ou não estar presente em uma ou outra dessas listas, ou em todas, já que elas carecem – às vezes desesperadamente – de imparcialidade ou, no mínimo, de bom senso, a discussão é outra … Indiscutível mesmo é o fato de o dono da cartola mais famosa do Planeta – assim como poucos outros – ter conseguido realizar, em se tratando de riffs de guitarra, uma verdadeira façanha – aqui, no caso, conhecida como Sweet Child O’ Mine Riffs assim – daqueles que se tornam imortais – normalmente não surgem de modo deliberado, decidido ou planejado. Ainda mais no caso de Slash, que na Califórnia de meados dos anos 80, vivia, juntamente com os demais comparsas de Guns N’ Roses, uma vida naturalmente desleixada, como até então mandava a cartilha do bom e velho Rock n’ Roll – a canção Reckless Life  que  o  diga !

 Estávamos numa casa que uma companhia […] havia alugado pra gentedisse Slash. E  numa  tarde, quando a fumaça da noite anterior ainda se dissipava, Duff, Izzy e eu estávamos sentados no chão – já não tínhamos mais nenhum móvel – e eu estava brincando com aquele riff. Com toda  honestidade, eu realmente não sei de onde tirei aquele riff, mas de repente começou a soar  bem legal.  Izzy começou a tocar um violão por trás e as mudanças de acordes foram aparecendo. Axl   estava no andar de cima, em seu quarto, e escutou a música. Dias depois, após terminarmos a  estrutura simples de riff e acordes, Axl disse, toquem aquela música que vocês estavam tocando outro dia. Nós perguntamos, que música?, e ele falou, aquela com o do dodo do doo do do. Ele havia escrito algumas letras para ela sem que a gente soubesse. Ela ficou pronta [num tempo] relativamente rápido. Começamos a ensaiá-la e a escrevemos do início ao fim …     http://www.classicrockrevisited.com/interviewSlash.htm

 Dali em diante, Sweet Child O’ Mine entraria para a história da música mundial como um dos riffs mais curiosos e ao mesmo tempo empolgantes já produzidos. Todo respeito que existe a riffs como Day Tripper, de Lennon e Mc Cartney [Beatles]; Satisfaction, de Keith Richards [Rolling Stones]; Sultans of Swing, de Mark Knopfler [Dire Straits] e, dentre tantos outros, a inconfundível Eye of the Tiger, de Frankie Sullivan e companhia do Survivor, imortalizada em 1982 pelas pancadas do boxeador cinematográfico Rocky Balboa [Stallone],  mas Sweet Child O’ Mine  tem algo mais…

 Sim, porque, apesar dos mais de 25 anos, ainda hoje consegue, como nenhum outro som, despertar, feito alarme disparado, a atenção até mesmo dos ouvintes mais veteranos, surpreendidos como vítimas de um assalto que, embora encabeçado por Mister Axl Fuckin Rose e executado por McKagan, Stradlin e Adler – indivíduos de altíssima periculosidade sonora –, tem como mentor  intelectual e principal executor Saul Slash Hudson, condenado à prisão perpétua nas páginas da História do Rock por cravar em corações e mentes uma das balas mais perfurantes já disparadas até hoje:  Sweet Child O’ Mine !

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Alguns  dados  da  música: 

– Faixa do disco de estreia do Guns N’ Roses (lançado em 21/07/1987)

– Lançada como single em 1988

– A letra da canção homenageia Erin Everly, na época, namorada de Axl Rose …

“Sweet Child”  executada ao vivo em Tokyo, 1992

Celebrando Bob Marley !

M.A.R.

 Dentre os grandes vultos do universo musical, raros fizeram da música instrumento de realização de um propósito tal qual Robert Nesta Marley ou, simplesmente, Bob Marley, como conhecido de todos.

 E, ao contrário do que muitos pensam, o propósito, melhor dizendo, a causa deste jamaicano que devotou 20 de seus escassos 36 anos de existência à música não foi a apologia da “semente que o xerife John Brown aconselha acabar antes que cresça[I Shot The Sheriff], mas, sim, algo bem maior: a unidade, esta tão utópica harmonia entre os mais distintos e diversificados terráqueos.

 Reverenciado por nomes de peso como The Clash ou ainda por monstros sagrados da estatura de um Eric Clapton … ou até mesmo por “figurinhas” da marca de uma Rihanna, por exemplo, o som de Marley, ao sair das Antilhas – feito fumaça jogada pro alto – e impregnar os quatro cantos do Mundo – com odor inconfundível – tornou-se e ainda tem sido padrão para se avaliar a qualidade de qualquer ruído que atenda pelo nome de reggae.

 30 anos após sua morte e o som de Bob Marley continua forte e inebriante feito vinho tinto. Suas canções ainda inspiram romances [Is This Love?]; ainda incitam à rebeldia contra o chamado “Sistema” ou “Babilônia” [Small Axe]; ainda aplicam injeção de ânimo [Get Up Stand Up ou Lively Up Yourself] e – como não poderiam deixar de fazer – também conclamam à unidade, seja por parte de todos – indistintamente [One Love] – ou dos africanos, em especial [Africa Unite].

 Em tempos marcados por um certo clima de individualismo, competitividade, intolerância e consumismo, ao apontar para ideias como as de Marley, que – parafraseando o Rappacuram e acalmam, aliviam e temperam (e além do mais, amenizam a pressão!), talvez fosse mais apropriado oferecê-las a todos, dizendo Não compre, plante!

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Rihanna  canta  “Is This Love ?”  [Tributo  a  Bob Marley]

Eric  Clapton   interpreta  “I Shot The Sheriff”,  de  Bob Marley

Bela Matéria ( ! )  sobre  os  30  anos  sem  Bob  Marley  [06/02/1945  –  11/05/1981]

Phil Collins Going Back:  um último suspiro ?

M.A.R




 Em Setembro de 2010, o cantor e baterista inglês Phil Collins lança seu mais recente trabalho, Going Back, um disco com regravações de sucessos, sobretudo, da famosa gravadora Motown, especializada no gênero que se convencionou chamar de black music. A intenção, segundo o artista, seria reproduzir – e do modo “mais fiel” possível – toda aquela sonoridade com a qual conviveu, nos anos 60, em sua adolescência – daí a participação de alguns dos consagrados músicos de estúdio da Motown.

 Embora, por um lado, o trabalho consiga, de fato, trazer aos dias de hoje, o agradável e envolvente clima sonoro outrora proporcionado por nomes como The Temptations, The Supremes e, dentre vários outros, o do próprio Stevie Wonder, por outro lado – e ao contrário do que possa sugerir o título -, o disco parece anunciar, só que agora de um modo definitivo, o encerramento de uma longa e bem sucedida carreira: do ponto de vista de seu desempenho vocal, Collins não consegue registrar algo à altura dos sons maravilhosamente bem produzidos em Going Back, o que, aliás, já vinha demonstrando antes mesmo do lançamento deste trabalho, ao cantar, com certa dificuldade, por exemplo, no Festival de Jazz de Montreaux, em Junho de 2010, na Suíça.

 Em Março de 2011 o cantor “oficializou”, como já vinha anunciando desde 2003, o fim de sua carreira: problemas de saúde – como o deslocamento de uma vértebra da coluna cervical (algo que lhe afeta os nervos da mão) -, audição diminuída e falhas nas cordas vocais vêm forçando o artista não somente a deixar de lado as baquetas como também a silenciar sua bela e agradável voz. Não me parece que alguém vá sentir saudades minhas – disse o astro, em tom de modéstia – o que, definitivamente, é um exagero, já que ele bem sabe de sua grande contribuição à boa música.

 Não por acaso, Phil Collins é o grande responsável por ter levado – a contragosto dos fãs mais ortodoxos – o Genesis, banda da qual foi baterista e depois vocalista, ao auge de uma carreira eminentemente comercial: são de sua época sucessos como In The Air Tonight; Mama; Jesus He Knows Me; Follow You Follow Me; Invisible Touch e a simplesmente fantástica Home By The Sea.

 Em sua carreira solo, Collins também é responsável por ter imortalizado vários dos maiores hits da música pop mundial: Against All Odds / Take a Look At Me Now (melhor executada na voz de Mariah Carey, é verdade); Another Day in Paradise; One More Night; Two Hearts; Something Happened On The Way To Heaven; Dance Into The Light; Easy Lover e, dentre tantos outros, a versão mais bem sucedida da canção True Colors, da cantora Cyndi Lauper.

 Sucessos como esses, em cerca de 30 anos de carreira, venderam mais de 100 milhões de discos em todo o Mundo e, dentre as premiações, fizeram com que Collins faturasse vários Grammy (como o de “Melhor Performance Vocal Masculina”, em 1985, por Against All Odds ou o de “Melhor Álbum do Ano”, em 1986, por No Jacket Required), além de um Oscar de “Melhor Canção Original”, por You’ll Be In My Heart, do filme Tarzan, em 2000. Tudo isso sem contar o fato de que seu talento foi reconhecido pelos mais diversos colegas do universo pop de sua época, como, por exemplo, Tina Turner ou Led Zeppelin, com os quais colaborou.

 A boa música certamente lamentará por não poder mais contar com os bons serviços prestados por um exímio baterista e por uma voz excepcional … E, voltando atrás no que dissera sobre ‘ninguém sentir sua falta’, o artista admitiria: Não estou parando porque não me sinto amado, sei que ainda tenho muitos fãs que amam o que eu faço…

                                                                                         … Obrigado”.

***

Confira alguns dos melhores momentos da carreira de Phil Collins


1. Com a banda Genesis, cantando Home By The Sea :

2. Tocando bateria:

3. Cantando Can’t Stop Loving You:



1987-1997: Michael Hutchence e a década de ouro do INXS

M.A.R
  

 Quando, em 1977, os irmãos australianos Andrew (teclados e guitarras), Tim (guitarra) e John Farris (bateria) se uniram a Kirk Pengilly (guitarra e saxofone), Garry Beers (baixo) e a Michael Kelland John Hutchence – um vocalista cuja voz até então nada tinha de excepcional – surgia, da mesma forma como poderia ter surgido em qualquer outro lugar do mundo, apenas mais uma banda … no caso, a The Farris Brothers.

 Nos quatro primeiros álbuns (de 1980 a 1984), embora conseguisse relativo destaque para uma ou outra faixa, o grupo, ao menos do ponto de vista de sua sonoridade – uma espécie de new wave pouco convincente –, não demonstrava ter muita pretensão. A não ser pelo novo nome, INXS, que se, por um lado, parecia não ter relação com sua proposta sonora, por outro, poderia servir pelo menos como um prenúncio de algo que os integrantes do grupo esperassem, um dia, viver …

 Lançado em 1985, Listen Like Thieves permitiu, aos músicos do INXS, visualizar um novo horizonte. Começavam, então, a tomar novas direções. Mas, nos dois anos seguintes – por maior que fosse o alcance que tivessem -, na prática, não conseguiam mais do que girar em torno do seu próprio eixo, isto é, a Austrália.

 Bastou, porém, a chegada de meados de 1987 para que, “como num chute”, o  INXS  simplesmente arrombasse as portas do mundo e a ele se impusesse como a mais nova sensação do momento. Kick trazia uma nova, envolvente e irresistível melodia. As guitarras suingadas, a bateria precisa e os teclados discretos, porém notáveis, dos irmãos Farris, associados ao baixo sensivelmente pontual de Beers e ao saxofone admirável de Pengilly, abriam alas para que desfilasse ostentosamente a, agora, ousada voz de Hutchence. O  INXS  finalmente ganhava o mundo … que, ao mesmo tempo, assistia ao nascimento de um ídolo.

 Michael Hutchence, de mero – e até tímido – vocalista de uma não menos musicalmente recatada banda, revelou-se – e de maneira surpreendente! – um legítimo frontman, com todas as características minimamente necessárias para isso: talento, carisma, presença de palco, beleza e uma certa sensualidade capaz de despertar inveja até mesmo em figurões da época, como Mick Jagger ou Axl Rose.

 Em dez anos, o INXS vivenciou o que qualquer outra grande banda vivenciaria uma vez inserida no maravilhoso, porém incerto, mundo pop : fama, assédio, turnês internacionais, estádios lotados, clipes na  MTV … e os romances de Hutchence … tudo isso embalado ao som contagiante de pérolas como New Sensation, Need You Tonight, Suicide Blonde, Disappear, Beautiful Girl e os blues … os poderosos e apaixonantes blues Never Tear Us ApartBy My Side  e  The Loved One.

 E, nesse mesmo clima de blues – mas agora daqueles bem melancólicos -, tomasse-se apenas o caso de Hutchence e lhe acrescentasse boas doses de problemas pessoais – devida ou indevidamente – associados a antidepressivos, bem como a um forte desejo de estar junto de sua única filha, e, assim, teríamos o final que normalmente – e infelizmente – não poderia faltar a uma “boa” história de rock: detalhes e especulações à parte, o fato é que a morte – em 22 de Novembro de 1997 – do líder do INXS, com apenas 37 anos de idade, simplesmente encerrava mais um daqueles momentos em que o mundo da música se vê sacudido por algo sinceramente novo.

 E a insistência, por parte dos demais integrantes da banda, em prosseguir com outro vocalista e, assim, sustentar o nome  INXS,  não poderia ser vista senão como, no mínimo, uma tentativa de substituir  o  insubstituível

* * *

 

 

Listen  to  INXS ! (Isto é, ouça em excesso:)

Kick (1987)

X (1990)

Live Baby Live (1991)

Welcome To Wherever You Are (1992)

Full Moon, Dirty Hearts (1993)

* * *

INXSBy My Side [Live 1991]

Leoni e o Manual de Sobrevivência no Mundo Digital

Em tempos de download, nem tudo está perdido para aqueles que ainda querem viver de música

M.A.R 

 Nas palavras do cantor e compositor Leoni, o Manual de Sobrevivência no Mundo Digital, longe de ser a fórmula do suce$$o pra quem quer se dar bem com as novas tecnologias da informação e comunicação, é, na verdade, um conjunto de recomendações feitas àqueles que se encontram perdidos no chamado mundo digital.

 Disponibilizado no próprio site do músico, o e-book é muito útil a qualquer um que arregale os olhos diante dos rumos que o mundo vem tomando em tempos de Google, Twitter, Facebook, iTunes e tantos outros.

 Apesar de priorizar os que estão tanto começando no mundo da música quanto dela queiram sobreviver – oferecendo, inclusive, dicas imperdíveis sobre criação, produção e divulgação de trabalhos –, Leoni também chama a atenção para o fato de que a revolução tecnológica transformou irreversivelmente nossa relação com a informação, o entretenimento e a cultura. E a música foi a primeira indústria fortemente afetada por essa nova realidade, embora, atualmente, tais mudanças já atinjam, com a mesma força, o jornalismo, a publicidade, o cinema, a TV e o mundo editorial. Isso sem falar nas próprias relações humanas.

Leoni: “Buscar novos modelos de negócio tem se mostrado muito mais inteligente do que tentar preservar os antigos”

 Mas no campo da música, em especial, Leoni lembra que a resistência a tais mudanças ainda existe, principalmente em tempos de download, sendo o maior exemplo disso o fechamento, em 2001, do Napster, até então, o maior site de troca de arquivos de música entre usuários da Rede. Fato que nem ao menos diminuiu a realização de downloads, agora feitos em inúmeros sites espalhados pela Internet. Uma realidade contra a qual boa parte da Indústria da Música ainda insiste em lutar, ao invés de a ela se adaptar.

 E se música hoje em dia está tão fácil quanto água, ficando mais difícil aos artistas ter lucros altos com direitos autorais – já que se pode baixar de graça suas canções -, um dos possíveis caminhos rumo à sobrevivência, seria, de acordo com Leoni, a implantação – inclusive no Brasil – do chamado Spotify, serviço virtual – comum na Europa – que, além de permitir que se ouça qualquer música a qualquer hora, ainda permite criar e compartilhar, com os amigos, listas de canções preferidas. Paga-se uma tarifa premium apenas se não quiser ouvir anúncios comerciais entre as faixas executadas. E não existe a opção de download, algo até desnecessário, já que se tem sempre acesso a essa discoteca infinita, que é o Spotify. Além do mais, pesquisas apontam que, pelo menos nos EUA, jovens entre 13 e 16 anos estão baixando menos música – mesmo a gratuita – e ouvindo mais online, informa Leoni. Assim, o sucesso na venda de discos só seria possível, aos artistas, caso, além de músicas, eles também oferecessem algo mais às pessoas… O Spotify parece ter tudo para dar certo, uma vez que grandes gravadoras e muitos selos têm cedido suas canções a este imenso acervo virtual. Quanto aos lucros… … as assinaturas e a publicidade iriam direto para um fundo, dividido proporcionalmente entre as canções executadas.

 Com relação aos downloads, outra alternativa defendida por Leoni seria a implementação da chamada Tarifa Plana (ou Flat Fee): cobrança de uma taxa pelo acesso à rede em banda larga, onde se poderia baixar ou executar livremente as músicas disponíveis. O valor arrecadado seria dividido entre artistas, selos e compositores que tivessem suas canções baixadas ou executadas. Nenhum controle para evitar downloads, nada de processar usuários” e um futuro com algo em torno de quatro bilhões de pessoas pagando uma pequena taxa mensal”, diz o músico.

 

 Porém, o maior obstáculo a ideias como estas seria, nas palavras do cantor, a oposição ferrenha de diversos detentores de direitos autorais, os quais “querem ganhar um fixo por download ou compartilhamento, como acontece nas lojas virtuais que seguem o modelo do  iTunes. Por detentores de direitos autorais entenda-se, não os autores, mas, aqueles que ganham com os rendimentos das obras: editoras, gravadoras e sociedades arrecadadoras. Grupos que, segundo Leoni, ao invés de ganhar centavos de bilhões de pessoas e deixarem a música circular livremente, querem garantir seu modelo de negócios, o que exige um controle extremamente caro e ineficiente, além de punição aos que infringem a norma …

 Este e vários outros assuntos – como, por exemplo, o de como sobreviver da música distribuindo gratuitamente faixas pra download (!) – são tratados de forma clara e precisa por Leoni em seu Manual, livro cuja credibilidade se garante não só por ter sido escrito por um dos grandes responsáveis pelos maiores sucessos do Kid Abelha – ou, mesmo, por um grande nome da Música Brasileira -, mas, sobretudo, por um artista que, diante das inovações tecnológicas que envolvem sua própria carreira, ao invés de ignorá-las – e correr o risco de ser tragado por elas – prefere rever conceitos e adaptar-se … … como num verdadeiro update.

Baixe de graça o livro de Leoni, diretamente do site do cantor:

(Necessário, antes, um rápido cadastro com email e uma senha criada por você, na hora)
http://www.leoni.com.br/
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